quarta-feira, 22 de junho de 2011

E quando nos encontramos... (parte 5)

Ele me deu um beijo. Ali mesmo na padaria, sem se importar com nada. O beijo era tão necessário que não importava o resto. Os garotos que costumam ficar na esquina próxima a padaria, não estavam ali, um bando de sem o que fazer. Se estivessem, já teriam se manifestado ao verem o beijo. Diriam alguma coisa sem graça e todos cairiam na risada. Uma forma de expor o que é diferente e esconder que eles são todos iguais. Não sei se eles entenderiam, não sei se me incomodo com isso. 

Tentei distraí-lo para que não reparasse na simplicidade da padaria e da minha casa. Com certeza era bem mais simples do que ele imaginava, mas ele não demonstrou nada, pra mim de qualquer forma era óbvio. Ele parecia bem confortável, meio cansado por conta da viagem,  cheio de amor, vontades e sonhos.

Saímos para uma caminhada à tarde. Eu e ele pelas ruas de Belmonte, da para acreditar? Caminhar para mim sempre foi a solução para todos os problemas. Sempre penso melhor andando.  Antes, um almoço em família, onde meu irmão e minha mãe conheceram o tão famoso L., de que tanto havia falado. Todos gostaram dele, pelo menos aparentemente. Nenhuma palavra torta nem nada do tipo. Talheres e pratos. Copão cheio de coca-cola. Brinde. Digestão. Passeio pela tarde a caminho da praia. Sorrisos. Beijos. Mão com mão. Ter alguém que esteja ali para segurar sua mão quando você precisa é algo tão precioso. Tão raro. Na praia fomos bem longe, corremos chutando a água. Ele lá do fundo gritando meu nome. Os pés afundando na areia. Mar. Sempre ondas. Roupas jogadas pelo chão. Estávamos mergulhos. Nus pela água salgada. Talvez um pouco de sexo. Era foda estar tão dependente dele para ser feliz. Era foda saber que já não poderia viver sem ele. Amar é tão arriscado quanto ter uma arma apontada para sua cabeça.

Na volta, muita fumaça. Aquela coisa ardendo dentro das narinas. Alguém havia colocado fogo em um dos campos que há nas laterais da estrada que nos leva até a praia. Demos uma corridinha para sair do pior. Ele riu, achou engraçado o meu jeito de correr. E depois, a noite, um jantar.

No centro encontrei alguns amigos e apresentei meu namorado, ou seria noivo? Eles se surpreenderam com a revelação. Ninguém espera a verdade assim tão na cara. O hábito da mentira é tão presente em todos nós que qualquer vestígio de verdade nos assusta. Mas não passou de um susto. Todos receberam a novidade muito bem. Qualquer exagero era desnecessário. Sabíamos que nos pertencíamos e isso bastava. Apenas algumas carícias singelas em olhares e toques. Demonstrações de afeto em público nunca foram meu forte.

No primeiro dia jantamos só nós dois. Eu que só queria seu riso. Ouvir sua risada. Seu lábio no meu como uma parte de mim. Uma parte de mim que vive fora. Ele era a melhor parte de mim. Marcaríamos um jantar com os amigos ou alguma festa para dia seguinte. Foi então que ele disse o objetivo dele ter vindo até mim. Ele queria me levar com ele. Me levar para morar com ele. E não aceitaria uma resposta negativa. Ele disse que tinha certeza que me amava. E disso eu também tinha certeza, eu poderia ser inseguro em tudo, mas minha única certeza era do meu amor por ele. Não havia erro aí. Era isso e pronto. E disso ele sabia. Ele sabia que era minha cura. E eu sabia também que de certa forma era a cura dele. Nos completávamos por sermos tão iguais e diferentes ao mesmo tempo. Ás vezes eu imaginava o que meus amigos ou alguns conhecidos meus de Belmonte estavam pensando de tudo aquilo. Aposto que pensavam em como alguém esquisito como eu conseguiu um namoro bonitão e gente boa, aposto que pensavam que eu fiz algum tipo de macumba. Não me importava demais com isso. Meus dias ali estavam contados e eu precisava focar na alegria imensa que eu sentia. Não poderia estar em outro lugar. Só ali, ao lado dele, nenhum pensamento distante, só os que encontravam com os dele.

Minhas manifestações de carência estavam menos frequentes agora que eu tinha alguém que estava por mim. Sempre fui de esconder sentimentos, então em um momento qualquer, virei o contrario, precisava me expor para me sentir bem. É tão clichê falar de amor, tão óbvio e tão inevitável. L. chamou minha mãe para conversar. Disse que queria casar comigo e me levar dali. Disse também que se ela quisesse poderia vir morar conosco futuramente. Ela ficou pasma. Engoliu em seco. Concordou baixinho, quase discordando, afinal era difícil para ela viver distante de seu caçula. Para mim também não foi fácil. Não sei quantos nós aqui dentro. Mas eu precisava  de uma vida para chamar de minha e era essa a oportunidade que eu esperava para finalmente começar uma.
 

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