quinta-feira, 30 de junho de 2011

A carta ou Os hipopotamos ainda não foram cozidos em seus tanques

Escrevi uma carta durante a madrugada. O choro escreveu. Tava meio bêbado. Meio bêbado não, totalmente embriagado. Sem achar sono. Sem achar explicação. Porque tudo que você me disse não fez sentido algum pra mim. Ainda tento apagar da memória aquele telefonema. Tudo naquela noite parece um borrão, surreal e chuvoso. Nunca esperaria o pé na bunda. Virava na cama com dores internas tão profundas que inalcançáveis. Não deveria ter feito isso, não deveria ter escrito nenhuma carta. Sou um pé no saco. Você tem o direito de não me querer mais. Eu passei a noite escrevendo. Agora nem lembro bem o que escrevi. Pode ser que o conteúdo da carta piore ainda mais a imagem que você tem de mim. Não se engane, o vilão sou eu. Eu tenho algo de esgoto em mim. Algo do podre do mundo. O presente do dia dos namorados que tu me mandou chegou. Eu nunca havia ganhado nada de dia dos namorados porque nunca havia tido um. Ainda estou lendo o livro, estou gostando. Gostei da carta também, você disse coisas que foram importantes, coisas que eu precisava muito saber. O pé na bunda que você me deu doeu demais, porque eu não esperava. E os hipopótamos foram cozidos em seus tanques. Agora Jack Kerouac e Burroughs me fazem companhia, assim como o disco da Amy Winehouse. Talvez eu não tenha agradecido o presente da maneira adequada. Eu tentei te ligar naquela tarde, antes de tudo isso acontecer, mas não consegui, caiu na caixa de mensagens. Tudo que havia pra ser dito já foi. Logo de manhã eu corri até o correio e mandei essa tal carta que foi escrita no desespero de perder meu bem mais precioso, com o álcool como combustível e com muita chuva no vidro dos olhos. Homens não deveriam chorar assim. Mandei a carta antes mesmo de entender tudo. Antes mesmo de saber que você já não me ama. A carta já está a caminho. Não há como evitar isso. Eu achei que você estivesse zangado comigo. Mas não, agora você está feliz. Você pode ficar com quem quiser e parece que você prefere a quantidade do que a qualidade e eu não te culpo por isso. Você tem mesmo que aproveitar a vida. Você disse que sua meta era ser meu marido e eu acredito que você queria mesmo. Mas sempre tem coisas que atrapalham. E você não está pronto para algo tão sério, talvez nem eu esteja. Talvez eu tenha tentado forçar uma evolução antes do tempo. Talvez eu quisesse pular etapas pra te ter mais perto e acabei te afastando. Você disse que se eu fosse te visitar tu me estrangularia. Disse que nunca havia sofrido tanto por alguém, nunca havia chorado tanto. Eu digo o mesmo. Eu acho que nunca havia amado realmente alguém antes de você aparecer, e agora sei que o amor é uma coisa perigosa. Você disse que eu te odeio. Eu nunca te odiei, nunca mesmo. Nem quando estava com raiva de você por algum motivo bobo. Só quero que você entenda que ser fiel à alguém não significa não ser livre. Ter alguém só pra você. A certeza desse amor é uma forma de liberdade. Não adianta querer amar várias pessoas ao mesmo tempo, assim você acaba não amando ninguém. E, de certo modo, você se acostumou a ser de todos. E isso também é uma prisão. Você me odeia porque eu te entendo melhor do que deveria. Eu sei o que faz. Eu sei quem você é. Eu vejo tudo. Você não consegue se esconder de mim, porque no fundo somos iguais.

5 comentários:

  1. I feel your pain my friend...

    "Life can be cruel...but Love is so much crueler" (I know)

    Hugs

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  2. Jack Kerouac, Burroughs e Amy Winehouse são ótimas companhias.

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  3. "O sofrimento muitas vezes é visto de forma negativa... Para a maioria dos mortais é sim uma forma negativa, mas para os escritores serve de combustível para o amadurecimento da vida intelectual, pois é através dele, que as pérolas da literatura são escritas, concedendo a imortalidade a um simples mortal"

    Sidney Santborg

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  4. Vai ver amor é mesmo prisão.. (prisão cheia de liberdade, dependendo do seu ponto de vista). Enfim, tá lindo ,)

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  5. Oi Rafa,
    Eu li. Eu sempre leio. Sempre sei. Mas falo pouco. Já passei por algo parecido por tantas vezes, mas é diferente com cada um e para cada um...o que quero mencionar é que nunca mata. O tempo passa e a gente se ri do tamanho que as coisas eram "naquele tempo". Hoje, me dou o luxo de esquecer o nome de alguns que amei. Posso dizer que aprendi a "amar menos" porque o demais sempre estraga. É sempre desesperado demais, urgente demais. Temperança é uma qualidade subestimada.

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