domingo, 22 de maio de 2011

Eu tantas vezes.



Eu tantas vezes sujo. Eu tantas vezes porco. Eu tantas vezes me torno o que não quero ou me transformam no que não sou. Eu tantas vezes neorótico e desequilibrado e meio novela mexicana. Eu tantas vezes idiota de querer fazer o certo e errar tentando. Eu tantas vezes velho e estranho e assustado. Eu tantas vezes desesperado para ser visto por alguém que me olhe com bons olhos e se entregue a mim. Eu tantas vezes qualquer coisa. Eu tantas vezes sou isso agora e amanhã já sou aquilo. Eu tantas vezes uma ansia de amar. Eu tantas vezes gostar escondido. Eu tantas vezes gostar e não ser correspondido. Eu tantas vezes tento enganar o espelho fingindo ser bonito. Eu tantas vezes procurei beleza em mim. Eu tantas vezes quis vencer o obstáculo que sou e crio confusão sozinho e me perco sem sair do lugar. Eu tantas vezes beirando a loucura, o extremo, o absurdo.Eu tantas vezes aceitei qualquer gorjeta que era o mesmo que nada. Eu tantas vezes procurei alguém que fosse minha cura, um alguém remédio. Eu tantas vezes me apaixonei por ilusões. Eu tantas vezes nada sei e nada tenho a dizer e continuo a falar. Eu tantas vezes zumbi comendo cérebros e imitando ídolos e copiando a música da  Patife Band. Eu tantas vezes só um mendigo em busca de atenção. Eu tantas vezes esse nó no peito, dor no estômago e covarde. Eu tantas vezes sozinho numa festa, nada de rosto e não reconheço as vozes amigas. Eu tantas vezes me humilho exibindo meus defeitos, não por orgulho, mas por serem tudo que tenho. Eu tantas vezes transformo a escrita num quarto sem porta nem janela. Eu tantas vezes vergonha ou timidez ou medo. Eu tantas vezes disse que o silêncio é o meu namorado e não calo a boca e digo o que não devo. Eu tantas vezes esperei o cara certo e ele nunca chegou e não sei se chegará e não sei se ele existe. Eu tantas vezes quis ser outro, só mais um clichê, para que pudessem me colocar numa prateleira e ser vendido. Eu tantas vezes não fui visto e fugi. Eu tantas vezes olhei pro lado e perdi o que precisava ver. Eu tantas vezes encontrei a felicidade num momento ou bêbado e depois pior. Eu tantas vezes deitado na calçada erto dum escarro anônimo esperando por um carro vir e acabar com tudo num atropelo. Eu tantas vezes sem entender a vida e sempre esperando por ela. Eu tantas vezes verme e inseto e rastejando e chorando e seco de lágrimas. Eu tantas vezes poça que na verdade é mar. Eu tantas vezes uma frase que não acaba nunca porque o ponto final vai se esquivando. Eu tantas vezes evito o fim.

6 comentários:

  1. So very deep...I see myself in much of this.
    "Truth be told"

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  2. Nossa, me identifiquei com "Eu Tantas vezes"...
    Ótimo!!!

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  3. Eu tantas vezes sou como você haha

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  4. Olá, querido. Passando pra te lembrar que teus textos me são inspiração. Eu gostei muito da repetição do "eu", que deu ênfase, primeiramente, ao título e, depois me passou a ideia de confusão do "eu-lírico". A repetição do "eu" passou- pelo menos pra mim- essa necessidade de afirmação. O que em muito se parece com o estilo do CFA(sem querer fazer comparações, pois cada um tem um algo mais em sua literatura). Eu definiria este texto com quatro palavras: intenso, febril, envolvente e sublime.
    Beijos, te sigo. ;D

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