terça-feira, 31 de maio de 2011

E quando nos encontramos... (parte 4)

Porto Alegre. Aeroporto. Pessoas indo e vindo. Avião. Céu. Nuvens. A saudade já presente. Aeroporto. Porto Seguro. Solidão. Ônibus. Mochila nas costas.  Cabrália. Balsa passando pelo rio. Mais pessoas indo e vindo.  Estrada até Belmonte. Casa. Casa? Não sei bem se era minha casa, certamente eu não me sentia em casa.  Eu era um estranho em qualquer lugar.  Parecia que eu havia estado em outra dimensão, em um lugar onde eu poderia ser além de existir. Aquela viagem havia me feito bem, eu havia descoberto que eu também poderia ser feliz, que eu também tinha um lugar só meu, onde eu posso me sentir a vontade. A Mallu canta em um música uma frase que resume bem isso : “My home is my man”.
Chego na padaria. Abraço materno. Quase um choro. Medo de perder um filho. Mais abraço. Mochila jogada no sofá. Não reconheço muito bem as coisas, a sala. Ligo o rádio. Arctic Monkeys. “…there ain't no romance around there”. Alex Turner, seu fofo. Me jogo rendido, cansado, como se tivesse trabalhado demais, ou sofrido, ou amado, e agora que havia relaxado, tudo pesava.  Ar saindo e entrando. Olhos procurando a identidade das coisas. O gato se roçando em meus calcanhares. “So give me coffee ant TV...”. Sim, tinha começado a tocar Blur. Eu cansei de tudo, desliguei o rádio.
O difícil era se acostumar sem ele, depois de tê-lo. Parecia que haviam sido muito mais do que três dias. Parecia que estávamos realmente ligados por uma força maior que não poderíamos nomear, nem entender.
Minha mãe perguntando coisas, meu irmão perguntando também. Eu que nunca soube me explicar muito bem, só conseguia confundi-los ainda mais.
As semanas de repente voltaram ao que eram. L. me ligava de quando em quando e eu fazia o mesmo. Conversávamos horas pelo MSN, ou Orkut, ou Facebook, ou onde estivéssemos on line no momento.  Voltou o quase tédio da rotina. Quase tédio porque já não acredito mais nele. O tédio não existe. Eu posso vencê-lo, extingui-lo. É só eu fazer algo, né? Então, não era tédio. Era apenas uma monotonia de fazer as coisas porque elas simplesmente devem ser feitas e também um desconforto, por saber que eu não deveria estar ali.
Geralmente eu o imaginava comigo o tempo todo. Fazendo as coisas que eu fazia. Lembrava de seu riso. Sua beleza me encantava, tanto quanto sua inteligência. Sua beleza também me assustava. Ser belo desse jeito deve ser como ter super poderes. As pessoas se jogam em cima, são mais gentis. Deve ser bom, parece tudo mais fácil e menos solitário. Porém, talvez seja complicado ser julgado apenas pela capa.
Ia fazer quatro semanas que eu havia o visitado. Nesse dia eu estava meio paranóico. É que perco um pouco do controle quando ele não está on line e não me liga. Preciso saber dele, para saber de mim. Tentava manter a calma, relaxar, respirar profundamente, mas nada parecia funcionar. Não perdia o controle totalmente, já estava aprendendo a não me deixar cair sem antes saber se a queda realmente existia. Não sofreria por suposições. Sempre a espera. Só caria se a queda fosse necessária e inevitável. Naquele momento poderia ser qualquer coisa, falta de crédito no celular, a conexão da internet que estava ruim, não sei. Me controlei, mas o sono não veio. Só consegui chegar ao sono indo atrás dele, usando táticas, como imaginar L. comigo, dormindo abraçado, como fizemos nos aquecendo no frio de Campo Bom.
No dia seguinte um longo banho frio.  Antes fiz umas quinze flexões, pois era o máximo que conseguia. Era só pra sentir que meu corpo estava ali, pra acordar.
Os fregueses chegavam como de costume na padaria. Eu sempre dizia “bom dia” e nem sempre era correspondido. Sentei para escrever uma frase que escapou de minha cabeça e queria ir direto pro papel. Senti que havia entrado alguém na padaria. Ergui a cabeça e o “bom dia” automático saiu acompanhado de um meio sorriso também automático. O quê? Era L. Não poderia ser. Ele rindo. Mochila nas costas. Eu sem palavra. O meio sorriso automático se transformou em um sorriso largo e espontâneo e quase lágrima. “Bom dia”, ele respondeu. Eu pensei: “Minha casa chegou”.

4 comentários:

  1. Every time I read this "love" story it draws me in more and more...how beautiful to see this Love this connection grow between the 2 of you.

    " My house has come".........

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  2. Adorei o Texto inteiro, mas esse final foi o mais legal !!!

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  3. ahhh que surpreendente esse enredo todo. Tá maravilhoso isso aqui, gostei tanto!
    E Mallu sempre dizendo o que precisamos escutar. Essa frase dela: "Imagine if distance disappear so you could be here" é uma dessas que fazem todo o sentido agora pra ti.

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